O PÉ HUMANO NA ARTE - Edward Bradford

Dr. Silvio Maffi

Artigo traduzido da publicação científica americana: “The Journal of Bone and Joint Surgery” – JBJS, may, 1897;s1-10:148-161.

 

Autor: Edward Hickling Bradford, MD

 

Artigo de maio de 1897 de autoria de Edward Hickling Bradford (1848-1926), uns dos pioneiros da ortopedia moderna. Dr. Bradford formou-se na escola médica de Harvard em 1869, tornando-se o primeiro professor de cirurgia ortopédica após sua especialização na europa e em Nova York. Foi um dos pioneiros no tratamento ortopédico especializado em crianças no hospital Samaritano e Hospital Municipal de Boston. Tornou-se reitor da escola médica de Harvard de 1912 a 1918. Realizou muitas pesquisas e estudos e foi co-autor de livros importantes e de referência na ortopedia moderna. Morreu em 1926, aos 78 anos, de hemorragia cerebral aguda.

Neste artigo de 1897 ele descreve os tipos e as formas dos pés encontrados na arte antiga. Faz referência às várias obras e às mudanças do estilo de escultura dos pés, assim como os calçados usados naquela época e suas diferenças entre os mais variados povos do mundo. Relata a importante influência desses tipos de calçados nas deformidades adquiridas dos pés e dos dedos, como a deformidade rotacional, deformidade em garra e o Halux Valgus (joanete). Por fim, questiona a busca da perfeição anatômica pelos grandes mestres da arte e a representação do pé humano na natureza e para a humanidade.

 

O PÉ HUMANO NA ARTE

 

E. H. BRADFORD, M.D.

BOSTON

 

Quando o escultor americano Hiram Powers apontou com orgulho para a excelência anatômica dos olhos da sua principal obra, a escrava grega, em contraste com as supostas anomalias em obras de arte clássica, ele alegou-se falta de verdadeiro espírito artístico. Corrigir defeitos comuns não é preferível ao que é belo e verdadeiro, mesmo que o último tenha somente defeitos em pequenos detalhes. É certamente uma hipercrítica estabelecer defeitos sobre pequenas trivialidades que todos admiram. Nenhum católico, beijando o dedo de bronze do pé de São Pedro no Vaticano, faz uma pausa para analisar sua modelagem e ninguém olha os defeitos anatômicos da “Coroação da Virgem” de Fra Angelico ou da “Madonna” de Botticelli no museu do Louvre, seria uma completa perda de tempo. E ainda, um grande estudo sobre Homero não precisa desvirtuar a nossa admiração ou reverência perante sua obra.

Qualquer pessoa que se interesse pelo assunto da forma do pé humano vai achar interessante examinar os pés de uma coleção de estátuas.

Embora haja alguma variação nos trabalhos de diferentes escultores, serão encontrados vários tipos de pé que podem ser classificados em três categorias:

 

1. Tipo Bárbaro e Egípcio.

2. Tipo Clássico.

3. Tipo Neoclássico e Moderno

 

O primeiro pode ser considerado os pés descalços ou de sandálias, o segundo com coturnos (tipo de sandália alta trançada, sandália romana) e o terceiro os com sapatos, normalmente desgastados.

O pé tipo bárbaro e egípcio normalmente é mal modelado, com exceção de algumas das melhores esculturas egípcias, onde a modelagem foi feita com cuidado. As várias estátuas de Ramsés II de 882 AC e a famosa estátua de madeira da quarta dinastia, 3700 AC, são excelentes exemplos dessa classe (1).

Outros exemplos são os trabalhos dos assírios, indianos, burmeses, siameses, chineses, japoneses, algumas estátuas da África, México e Alasca. Também podemos incluir o arcaico, etrusco, Cipriano e as estátuas gregas (2).

 

1. Uma múmia pode ser vista no Museu do Louvre, mostrando o cuidado com que o alinhamento dos dedos do pé foi preservado. Cada dedo, incluindo o quinto, foi separadamente enrolado. No Museu Britânico uma múmia exposta de um oficial egípcio da XI Dinastia apresenta o alinhamento do primeiro dedo retificado.

2. As estátuas gregas sobre a via sagrada na Branchidae Caria, Ásia Menor, século VI AC, mostrar o quinto dedo do pé retificado. Todas as estátuas gregas posteriores mostram as peculiaridades mencionadas no tipo clássico.

 

Essa classe é caracterizada pela falta de divergência dos eixos dos pés na posição ortostática, isto é, pela posição paralela e retificada da borda interna dos pés, além da condição em linha reta e sem pregas de todos os dedos.

 

 

Fig.1 – Diagrama representando os pés na escultura.


A. Na escultura Grega, Romana e Moderna, copiando a antiga.


B. Na escultura egípcia.


C. Na escultura moderna pseudoclássica.

 

Na arte egípcia e no início da arte grega, onde não há qualquer tentativa de cuidado na modelagem dos dedos do pé, o primeiro dedo está separado do segundo e, na maioria dos casos, o segundo dedo é representado um pouco mais longo que o primeiro (3).

 

3. No Museu de Antiguidades Nórdicas, em Copenhagen, uma pedra arredondada mostra marcas de duas pegadas com a borda interna reta, os dedos dos pés, incluindo o primeiro e o quinto, retos. Isso é desconhecido da antiguidade.

 

O segundo tipo ou tipo clássico é representado pelo pé do famoso Hermes, supostamente feito por Praxiteles. As características são bem marcantes. A linha da borda interna do pé é sempre reta, só que existe uma leve curva abaixo da cabeça do primeiro metatarso.

Há uma separação entre o primeiro e o segundo dedo; o segundo, terceiro e o quarto freqüentemente divergem do eixo do pé em um ângulo de pelo menos trinta graus e são paralelos uns aos outros; o quinto dedo é representado como curto e amassado e é colocado atrás da base dos outros dedos. A borda externa curva-se atrás do quinto dedo em direção ao meio do pé e o ângulo de divergência dos pés em posição ortostática é pequeno.

 

 

Fig. 2 – Diagrama dos pés de pessoas que usam sapatos, mas com pouca distorção.

 

A - Adulto, primeiro e quinto dedos do pé ligeiramente deformados pelo sapato.

B - Criança com dedos estendidos por ação muscular.

C - Criança com a musculatura dos dedos relaxada.

D - Sobreposição leve do primeiro e quinto dedos, em criança com sapatos.

 

Este tipo é observado em todas as estátuas gregas e romanas com pouca variação, a direção retificada do primeiro dedo e a deformidade do quinto dedo. A ondulação do pequeno dedo aparece na arte grega após o século VI AC e pode ser considerada universal, pois toda a arte é influenciada pela tradição grega.

O pé na escultura moderna, bem como no renascimento, é copiada em grande parte do clássico; a distorção peculiar do quinto dedo é universal e, além disso, o pequeno dedo é muitas vezes colocado ainda mais para trás. Sempre que o escultor se esforçou para deixar os modelos clássicos e copiar a natureza ele produziu uma curiosa mistura de distorções. Isso é particularmente visto na escultura recente, onde o desvio do maior dedo do pé é extremamente comum. Escultores modernos, negligenciando as tradições clássicas, copiam modelos imperfeitos. A divergência externa do segundo, terceiro e quarto dedos, a partir da linha mediana (copiado e exagerado do grego), sendo o quarto dedo do pé em linha reta e sem pregas, é impossível nos modelos modernos. O escultor moderno copia também a linha curva do lado externo do pé, que é vista na arte grega e romana, exagerando a curva clássica no desejo de apresentar uma curva de beleza (4). Certos escultores modernos colocam os pés divergindo em um ângulo maior do que o observado no período egípcio e clássico.

 

4. O número de escultores modernos, que reproduzem o Hallux valgus em suas estátuas é muito grande para serem enumerados. Mesmo um anatomista artístico cuidadoso como Gerome, em sua obra Bellona acrescenta este defeito. Os escultores do início do século (Thorwalsden e Canova) foram mais cuidadosos do que a escola atual francesas, mas freqüentemente modelaram o primeiro dedo com desvio. Isso também é verdadeiro no brilhante painel de Luís XIV e no Renascimento de Donatello e Michelangelo.

 

O tipo grego mostrou tal maestria na anatomia de superfície, o tipo bárbaro tão bruto e o tipo moderno tão impossível, que o primeiro impulso seria aceitar o pé de Hermes de Praxíteles e mostrá-lo como um modelo para todos os escultores, como é feito nas escolas de arte; mas qualquer investigação sobre qual desses tipos é o mais correto devemos nos basear sobre conceitos mais fidedignos e não tirar nenhuma conclusão precipitada.

Para formar uma opinião sobre este assunto é necessário ter em mente as deformidades dos pés causadas pelo calçado nos diferentes períodos referidos e estudar o pé humano sem qualquer alteração pelo uso dos sapatos.

A mais importante é a deformidade mais comum do primeiro grande dedo do pé, conhecida como Hallux Valgus, que resulta da pressão externa medial na sua extremidade. A deformidade correspondente aos dedos menores do pé é também muitas vezes vista, um amassamento e sobrecarga conhecida como dedo em martelo ou curvatura para baixo da ponta do dedo, resulta de sapatos demasiado curtos ou com o aumento da pressão frontal na extremidade dos dedos menores. Outras deformidades dos dedos são extremamente comuns em pessoas cujos pés foram pressionados por sapatos, ou seja, fraqueza ou impotência muscular por desuso da musculatura nas articulações falangeanas.

Algumas distorções dos dedos do pé são vistas em uma idade relativamente precoce. O exame dos pés de várias crianças indicou que, em comunidades onde os sapatos são usados, os pés, mesmo em crianças pequenas, diferem da forma normal; a separação entre o dedão e o segundo dedo se perde precocemente, o quinto dedo está curvado em direção ao quarto e a força muscular diminui, mesmo com a idade de três anos. Deformidade dos pés nas cidades modernas pode ser considerada universal e escultores, buscando modelos perfeitos, podem não encontrar nenhum pé ileso.

 

Forma do pé não afetado por sapatos

Se o pé de uma criança pequena for examinado notaríamos força muscular no movimento de todos os dedos do pé. O dedão pode mover-se voluntariamente para o interior, o quinto dedo pode ser levado para o lado externo pelo esforço muscular voluntário e os dedos dos pés podem ser dobrados facilmente. O segundo dedo quando esticado até seu comprimento total é frequentemente mais longo do que o primeiro; o terceiro é do mesmo comprimento do primeiro; o quarto é um pouco menor e o quinto, embora mais curto e fraco, move-se rapidamente, flete, estende e abduz pela ação muscular. Nenhum dos dedos permanece curvo, mas quando relaxados, a falange terminal cai um pouco, e os dedos menores se dobram.

 

Fig. 3 – Diagrama de sandálias com tiras interdigitais.

 

A - Egípcios, Japoneses e no uso geral de muitos outros países; tira entre primeiro e segundo dedo do pé.

B - Caldeus, tira ao redor do primeiro dedo.

C - Somália, ao redor do segundo dedo.

D - Toltecas, em torno do segundo e o terceiro dedo.

E - Etruscos, em torno do segundo, terceiro e quarto dedos do pé.

 

A separação entre o primeiro e o segundo dedo do pé é normal; quando os músculos estão ativos o dedão do pé aproxima-se do segundo. A linha da extremidade dos dedos forma uma curva gradual com a maior convexidade na ponta do segundo. Não há rotação interna do quinto dedo. A linha curva ligando as extremidades proximais dos dedos do pé é semelhante à formada pelas extremidades dos dedos. A linha da borda interna do pé é sempre retificada, exceto quando há contração muscular e o primeiro dedo move-se para dentro.

Pés de adultos que não tenham usado sapatos têm forma semelhante aos das crianças, exceto pelo atrito normal do movimento, desgaste e espessamento da pele, além de deformidades leves, com alguns dedos em martelo, devido à força muscular plantar. Por esta razão, o segundo dedo do pé não é geralmente mais longo que o primeiro, assumindo uma posição mais curva e sendo menos forte. A borda interna do pé é sempre reta, mas nas pessoas que andam ativamente, o primeiro dedo e seu osso metatarsal é mais desenvolvido em força e tamanho do que nos lactentes. O pé é mais longo em relação a sua largura; o quinto dedo, sendo o mais fraco, é muito suscetível a pequenas mudanças de pressão lateral e, quando usamos chinelos ou sapatos soltos, ocorre uma leve torção da falange distal. A parte mais larga do pé é formada pela linha transversal traçada entre os dedos, incluindo o quinto dedo, como no pé egípcio.

O pé lembra um pouco os retratados nas esculturas egípcias, exceto pela retificação paralela dos dedos; o segundo, o terceiro e o quarto não divergem do eixo longo do pé e, em posição de repouso, os dedos menores são mais flexionados do que nas estátuas egípcias.

Uma investigação das deformidades adquiridas dos pés devido ao uso de calçados leva a uma pesquisa sobre os diferentes tipos de cobertura dos pés.

Nenhuma prova é necessária para mostrar que o sapato moderno deforma o pé, uma avaliação de qualquer coleção de sapatos como a excelente coleção do museu de Cluny ou a notável exposição histórica de calçados na feira mundial de Chicago mostra que os sapatos da idade média deformaram os pés quase tanto quanto os modernos (5). Sapatos deformantes não eram tão universalmente usados como atualmente e foram talvez usados principalmente pelas classes mais altas. Sapatos de bico fino foi moda até mesmo entre os egípcios. Na verdade, logo que o homem deixou de utilizar seus pés para caçar, cultivar, marchar ou se locomover por longas distâncias, ele usa o sapato como um meio de ornamentação, de acordo com sua própria fantasia, como prova de distinção e da liberdade do trabalho braçal, como o pé deformado das antigas senhoras chinesas.

 

5. Isto também é visto nas esculturas históricas dos túmulos da idade média.

 

Calçados podem ser classificados da seguinte forma: botas ou sapatos, onde todo o pé está coberto; chinelos, onde a frente do pé é coberta, ambos presos na frente e cobrindo o dorso do pé; e sandálias, onde uma alça entre os dedos se une a cintas cruzadas que seguram o solado.

Apesar das botas, sapatos e chinelos variar a forma de acordo com o período e a moda, com exceção das botas de trabalho e montaria, sapatos ornamentais eram quase sempre de bico finos; embora no período da Guerra dos Trinta Anos e parte do século XVII, sapatos quadrados foram vistos ocasionalmente para os homens.

 

Fig. 4 – Sandália grega, com cinta entre os dedos do pé e alças laterais comprimindo o quinto dedo.

Fig. 5 – Desenho de fragmento da estátua de Apolo, encontrado em Phyaleia, agora no museu britânico, mostrando deformidade do quinto dedo pela correia cruzada.

 

Chinelos medievais e orientais não prendem o calcanhar e permitem que o pé deslize para trás sem apertar a frente do pé. Sandálias fornecem uma proteção para a planta e são fixadas por algum tipo de fita ou cinta de couro ou fibra. A mais antiga forma de sandália é vista em esculturas assírias, ela é pressa por uma cinta ao redor do dedão do pé que se une com as cintas laterais da sola e detrás do calcanhar. Na sandália egípcia, uma cinta passa entre o primeiro e o segundo dedo, saindo do meio da frente da sandália e passando sobre o dorso do pé, ligada com tiras às laterais da sandália. Esse tipo de sandália é a mais comum e se assemelha às atuais sandálias japonesas, mexicanas e da América do Sul. A antiga sandália tolteca foi equipada com duas tiras, uma passa entre o primeiro e o segundo dedo do pé e a outra entre o terceiro e o quarto. A sandália da Somália é um pedaço de cinta que prende o segundo dedo do pé, deixando os outros dedos livres.

 

Fig. 6 – Estátua egípcia, museu britânico, mostrando a representação retificada dos dedos do pé

 

Os etruscos aparentemente usavam uma sandália com tiras cruzadas, uma cinta presa no solado entre o primeiro e segundo dedo cruzava sobre o segundo, terceiro e quarto dedo do pé, onde era fixada novamente à sandália, deixando o primeiro e o quinto dedo do pé livres e os outros dedos protegidos sob esta cinta (6).

 

6. Isto é visto em uma rara efígie de terracota do período etrusco (não influenciada pela arte grega), mostrando uma sandália totalmente diferente de todas as outras vistas anteriormente.

 

Em todas estas formas de sandálias nenhuma pressão é exercida sobre o quinto dedo do pé, mas a sandália com uma cinta transversal frontal para a inserção de toda parte dianteira do pé, vista no oriente, certa quantidade de pressão era exercida sobre o lado do dedo mínimo, como em um chinelo. Esta cinta era, contudo, tão solta quanto à alça transversal de um calçado para neve.

 

Fig. 7 – Pé de Hermes de Praxiteles, sem a cinta cruzada, mas mostrando a deformidade do dedo mínimo (quinto dedo).

 

Na sandália grega, no entanto, uma cinta transversal ou cintas estavam aparentemente ligadas por cordões reforçados, mantendo-as mais firmemente junto ao pé. As formas variavam grandemente. Na maioria, uma única cinta interdigital era pressa na cinta dorsal cruzada. Em algumas sandálias a cinta interdigital foi omitida, preservando uma ligeira depressão na parte da frente da sola, entre o primeiro e o segundo dedo do pé. As sandálias gregas e romanas deram liberdade a todos os dedos exceto ao menor dedo do pé, que estava deformado pela alça transversal, bem como por tiras oblíquas que, em algumas sandálias, passavam de trás para frente pelas laterais e cruzavam o dorso do pé, levantando e deformando o quinto dedo. Quando este laço era perfeitamente atado, as cintas interdigitais tornaram-se inúteis, a pressão sobre o dedo mínimo e a parte superior do pé impedia o seu escorregamento para frente. Esta sandália pode ser facilmente imaginada, supondo-se uma pedaleira de bicicleta com a ponta removida, deixando todos os dedos livres exceto o dedo mínimo.

Uma sandália deste tipo talvez não fosse desenvolvida no período inicial da história grega, mas a julgar pelas esculturas, o Cothurnus do período grego e romano tardio provavelmente era pouco diferente do período clássico (7). Além da sandália, os antigos às vezes usavam uma cobertura solta como um mocassim, que não afetavam a forma do pé.

 

7. Uma análise dos calçados gregos e romanos como visto nas esculturas é dificultada pelo fato de que, em muitos casos, a sandália é banalizada e apenas representada. Uma grande variedade também é encontrada no tipo mocassim, como mostrado nos fragmentos do Parthenon e as elaboradas sandálias dos imperadores romanos. Uma sandália pode ser vista na estátua grega de Ariadne, encontrada na Roma antiga e agora no museu britânico, mostrando alças laterais unidas a uma tira que cruza sobre todos os dedos e deforma o quinto dedo do pé. A sandália na estátua de Jason no museu do Louvre mostra uma incisura na sola no espaço entre o primeiro e o segundo dedo do pé, onde uma tira seria encaixada, mas não existe nenhuma tira interdigital, a sandália está aparentemente presa pelas cintas laterais de couro atadas sobre o dorso do pé. Uma sandália peculiar é vista em um grupo do período romano, no museu do Louvre, chamado Marte e Vênus, em que a depressão é delineada, permitindo que os dedos caíssem em um nível inferior. As sandálias romanas no museu de Cluny, encontradas perto do Reno, e no museu de Munique, mostram uma borda interna em linha reta que poderia ter satisfeito qualquer índio norte-americano, e as sandálias retratadas na tabuleta votiva grega no museu britânico, teriam sido aceitáveis para um japonês moderno. As estatuetas de bronze do jovem Baco, na coleção King Payne no museu britânico, mostram a compressão lateral da borda interna do pé e do dedo mínimo sem uma alça cruzando sobre os dedos, enquanto a estátua de Adriano, também no museu britânico, a Diana caçadora e o filósofo sentado, do Louvre, bem como muitas outras estátuas, mostram a compressão pelo laço formado pela cinta cruzada sobre os dedos.

 

Calçados deste tipo poderiam desenvolver a forma do pé vista no Hermes de Praxíteles, deformando o quinto dedo, permitindo a extensão total do quarto, terceiro e segundo dedo pela liberdade e força desenvolvida, permitindo a retificação do primeiro dedo, formando a curvatura da borda interna do pé na extremidade proximal do primeiro metatarsiano pela pressão da cinta oblíqua e também da curvatura da borda externa do pé pela maior pressão da alça sobre o dedinho do pé e não no metatarso. A cinta interdigital acentuou a separação do primeiro e segundo dedo e desviou o eixo dos dedos menores. Este pé ligeiramente distorcido foi visto nos modelos estudados pelos mestres gregos.

A influência dominante da arte grega explica o fato de que a forma do pé foi sendo copiada por todos os escultores que aceitaram a arte grega como sua fonte. No renascimento, onde os modelos foram usados por grandes mestres da pintura e da escultura, a deformidade para fora do primeiro dedo após o uso do calçado é comumente descrita e na escultura é ocasionalmente vista. Entre os realistas da escultura francesa moderna este defeito, também conhecido como Hallux Valgus, é adicionado ao defeito clássico, ou seja, a diferença exagerada entre o quarto e o quinto dedo e o arredondamento da borda externa do pé. Escultores modernos freqüentemente dão um maior ângulo de divergência para os eixos dos pés em figuras ortostáticas do que nas esculturas clássicas, sendo muito maior nas figuras egípcias ou bárbaras. Nesse sentido os artistas modernos estão copiando modelos com defeitos em detrimento de sua arte.

 

Fig. 8 – Pé japonês, mostrando os dedos normalmente retificados.

 

Fig. 9 – Pintura de Sir Joshua Reynolds, mostrando a deformidade do primeiro e quinto dedos.

 

Isto pode ser discutido justamente, quando o uso convencional for admitido por um longo período de aceitação, sem violar as leis da beleza, justificando a sua existência por um direito de preferência; e seria uma hipercrítica se opor a ele. O argumento dificilmente se aplica a uma deformidade, que ao mesmo tempo parece inadmissível se instado por um artista chinês em defesa da beleza dos lírios dourados, como o chinês fantasia poeticamente os pés deformados das damas chinesas. As deformidades aqui mencionadas diferem em grau, mas não em espécie; desde que aceitas pelo seu uso na China, elas são também as distorções da natureza. Há uma saudável tendência na arte moderna de se revoltar contra o que parece uma convenção clássica e cópia da natureza, mas para isso, o artista precisa de um completo conhecimento que lhe permite apresentar o defeito observado em sua própria experiência como uma normalidade. A representação do corpete e do salto alto fere todas as exposições de arte moderna, mesmo quando um ideal é tentado. O escultor que modela “formas imortais” não deve perpetuar a deformidade (8). Não deve haver Zolaismo na escultura.

 

8. Os defeitos nos pé humanos nas figuras não são mencionados por completo e com todos os seus detalhes. Menos atenção é dada à modelagem nas imagens das esculturas. Em resumo, pode-se dizer que os defeitos mencionados são mais comuns nas pinturas, mesmo dos antigos mestres, do que nas esculturas – a deformidade em garra do quinto dedo é universal e o Hallux Valgus pode ser encontrado nas obras de todos os grandes mestres antigos. Na galeria em Amsterdam, uma tela de Henry Goltzius, de 1600, retrata a morte de Adônis com os pés entreabertos no primeiro plano exibindo dois hálux valgus com grave deformidade. Rubens nunca acreditou que seus erros apareciam diretamente sobre o espectador, mas suas falhas são graves, como é mostrado no livro de design no museu Plantin na Antuérpia e em quase todas as suas pinturas. Michelangelo, Ticiano, Tintoretto e Rafael, todos representaram o dedo mínimo deformado e freqüentemente o Hallux Valgus.

 

Poucos, mesmo entre os artistas, percebem como é comum encontrar defeitos imortalizados em obras de arte. O pescoço torto de Alexandre o Grande pode ser admitida em uma estátua de retrato, mas seria um erro admitir nas estátuas de todos os generais heróicos. Divindades com pés deformados, semideuses e semideusas com dedos desviados e heróis nacionais com pés supinados não podem ofender o observador exigente quando vistos em mármore duradouro ou bronze monumental. O pé normal se assemelha a uma combinação do pé escultural grego e egípcio. Isto é, a retificação da borda interna sem a leve curva ao longo da base do primeiro metatarso; o quinto dedo é paralelo aos demais, não é rodado ou deformado e não é localizado muito atrás da linha dos outros dedos; a borda externa é ligeiramente curva. Os dedos dos pés são flexíveis e não rígidos como em uma estátua egípcia, quando em repouso, estão ligeiramente flexionados, especialmente o quinto dedo. Pode-se dizer que um pé desse tipo não é tão gracioso como o que nos é apresentado pelo artista grego. Este argumento perde força na mente de quem viu os pés flexíveis não alterados pelo trabalho ou deformados por calçados. É certamente a competência do artista que nos fornece a beleza como ele a vê, mas ele deve encontrá-la dentro da linha da verdade. Isso é tão verdadeiro hoje como no tempo de Shakespeare, o qual na arte nós adicionamos a natureza. É a arte que a natureza nos dá.

Dr. Silvio Maffi

Dr. Silvio Maffi

Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo