O PÉ COMO FETICHE - MOACYR SCLIAR

Dr. Silvio Maffi

O PÉ COMO FETICHE

 

Moacyr Scliar – Coluna do jornal Zero Hora, 25/11/2006, RS

 

 

A posição bípede adotada pela espécie humana em algum ponto de sua evolução se fez, literalmente, sobre os pés, que, junto com a coluna vertebral, pagaram o preço por esse decisivo avanço. Os pés passaram a suportar o peso do corpo. Os pés, ao contrário das mãos, que só ocasionalmente usam luvas, passaram a ser calçados, e nem sempre da forma mais cômoda. Resultado: dores, calosidades, deformações, inflamações. “Meus pés estão me matando” é uma acusação que frequentemente ouvimos e que contém um elemento de injustiça: não são os pés que castigam as pessoas, em geral é o contrário que acontece. E o pior é que os pés são vistos como o “locus” da fraqueza corporal, e isso não se refere exclusivamente ao calcanhar de Aquiles, aquele que, quando bebê, foi mergulhado por sua mãe Thetis no rio sagrado Styx. O procedimento tornou Aquiles invulnerável – menos no calcanhar, por onde Thetis o segurou. E, por causa de um ferimento no calcanhar, o herói veio a morrer. E falando de pés frágeis, lembremos o sonho que o rei Nabucodonosor narra ao profeta Daniel: ele vê uma gigantesca estátua, com cabeça de ouro, peito e braços de prata, pernas de ferro, mas pés de barro – estátua essa que, previsivelmente, desaba quando os pés são destroçados por uma pedra, antecipando assim uma catástrofe política.

Mas a humilhação dos pés não fica aí. No livro Fetiche: Inusitados Desejos Sexuais, Clavel Brand afirma que “o pé não pode, exceto em circunstâncias muito bizarras, ser considerado adequado objeto do desejo sexual. Os pés suam profusamente, e, como são isolados doar por meias e sapatos, têm cheiro desagradável”. Mesmo assim, reconhece o autor, é preciso admitir que muitos homens são fixados em pés femininos, não só aqueles pezinhos chineses que, mediante apertadas ataduras, não cresciam e ficavam pequenos e delicados. Não, pés de mulher em geral. “Tem sido sugerido”, continua Clavel Brand, “que a forma do pé feminino, e a do sapato, lembram a da vagina”. Coisa que ele reconhece como possível: não há limites para a imaginação do fetichista. Já o neurologista V.S. Ramachandran explica esse fetichismo (que, segundo estimativas, ocorreria em 1% dos homens), dizendo que pés e genitais têm representação cerebral em áreas contíguas do córtex, possivelmente conectadas.

Explicações à parte, o certo é que não faltam estímulos para aqueles que tem uma fixação em pés: vários sites na Internet são dedicados a isso. E Britney Spears, recentemente, fez crescer o entusiasmo ao revelar que a zona mais erógena de seu corpo é o pé: ela tem uma tatuagem no grande artelho de seu pé direito.

Mas não é preciso ser fetichista para cuidar dos pés. Eles agradecerão muito se a pessoa elevá-los quando ficar sentada muito tempo, se usar sapatos confortáveis, se não fumar (o fumo prejudica a circulação para os membros inferiores), se massageá-los de vez em quando, se hidratá-los. Depois disso, estarão prontos para qualquer fantasia. E para a realidade também.

Dr. Silvio Maffi

Dr. Silvio Maffi

Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo