Existem evidências que a história do sapato começa a partir de 10.000 anos A.C., ou seja, no final do período Paleolítico, pois pinturas rupestres e achados arqueológicos desta época foram encontrados em cavernas da Europa e América do Norte.
O uso de fibras vegetais para amarrar e trançar é uma das habilidades mais antigas usadas pelos hominídeos na fabricação de utensílios e era usada inicialmente para unir galhos de madeira, construir abrigos, amarrar animais, fabricar cordas, redes e roupas primitivas. Por esta razão, os primeiros calçados foram provavelmente feitos de fibras vegetais trançadas.
O calçado mais antigo conhecido até hoje é uma sandália de fibra vegetal achada na caverna “Catlow Cave”, no limite sul de Catlow Valley, e na caverna “Fort Rock Cave”, perto de Fort Rock State Natural Area, ambas no estado de Oregon (EUA).
As sandálias datam de 9.300 a 10.500 anos e são feitas de fibras trançadas de Artemísia Tridentada(Sagebrush (EUA) ou Flor de São João (BR)) e estão expostas no Museu de História Natural da Universidade de Oregon.


Sandálias trançadas de Artemísia Tridentada de 9.300 a 10.000 anos
Na gruta “Arnold Research Cave” no Missouri (EUA), foram descobertos vários tipos de calçados, basicamente do tipo mocassim e sandália, datados com cerca de 7500 a 9000 anos, fabricados com pele de veado e fibras vegetais.



Mocassim de pele de veado e palha (esquerda) e sandálias de fibra vegetal trançadas (centro e direita)
(7500 – 9000 anos)
Nas cavernas de “Hinds Cave”, localizadas em Pecos, no estado do Texas (EUA), foram descobertos vários tipos de sandálias, fabricadas com fibras de Yucca e com Lechuguilla. Esses calçados foram também datados com cerca de 9000 anos.



Sandálias feitas com fibras trançadas de Yucca e Lechuguilla – 9000 anos (Universidade do Texas (EUA))
Ainda no período Paleolítico, concomitantemente com a utilização das fibras vegetais para trançar e amarrar, o homem aprimorou o uso da pedra lascada e de artefatos feitos de osso e madeira. Entre os utensílios de pedra encontrados, existem vários que serviam para retirar e raspar as peles dos animais, o que indica que a arte de preparar o couro advém da caça e da necessidade de proteger o corpo da chuva e do frio.
O curtimento primitivo do couro exigia certa técnica, pois o couro rígido era difícil de moldar e limitava os movimentos do corpo. Molhar, amassar repetidas vezes e passar gordura animal deixava o couro mais maleável e possibilitava a fabricação de vestimentas. Por isso, de certa forma, os calçados de couro foram uma evolução técnica importante para o conforto e proteção dos pés do homem pré-histórico.
Um grupo de cientistas internacionais, liderados pela Universidade de Cork na Irlanda, encontraram em uma enorme caverna na Armênia o sapato de couro mais antigo do mundo, juntamente com vários outros utensílios.
O objeto tem a idade estimada em 5500 anos, isto é, 1000 anos antes da construção da grande pirâmide. Segundo as análises realizadas sobre várias amostras por três laboratórios no Reino Unido e EUA, a peça é do ano 3500 A.C, do período Calcolítico ou Idade do Cobre. Isto o converte no sapato de couro mais antigo achado no Velho Mundo, já que supera em 200 anos os sapatos utilizados pela múmia mais antiga já estudada, o famoso “Homem do Gelo” Otzi, que viveu há cerca de 5.300 anos atrás e seus restos mumificados foram encontrados em 1991 nos Alpes Otztal, na fronteira entre a Áustria e a Itália.



OTZI – Múmia de 5300 anos e Representações do ” Homem do Gelo “

Sapato do OTZI (3300 A.C.) – Couro com amarras em fibra trançada e proteção de palha


Duas reconstruções do sapato do OTZI
Encontrado sob uma camada de esterco de ovelha, o sapato estava perfeitamente conservado devido aos sedimentos e às condições ambientais secas e estáveis do local. A caverna está a 4.500 metros acima do nível do mar, em terreno rochoso e as temperaturas variam de -10 °C no inverno a 40 °C no verão.

Sapato de 5500 anos e a caverna onde foi encontrado na Armênia
Baseado em um único pedaço de couro de boi, o sapato está em perfeito estado de conservação e tem o formato de um mocassim ainda com os tirantes de couro transpassando seus furos. O calçado estava recheado de palha seca e os pesquisadores ainda não sabem dizer se o vegetal servia para manter os pés aquecidos ou para conservar o formato do calçado enquanto ele estava guardado.

Sapato de 3500 A.C – 200 anos mais antigo que o sapato do OTZI

De número equivalente ao 35 e lado direito, o sapato poderia ter pertencido a um homem ou a uma mulher daquela época. Não se sabe muito sobre as pessoas que usavam o sapato, mas pensa-se que teriam sido alguns dos primeiros agricultores e tribos nômades que usavam a caverna como base.
De acordo com os arqueólogos, existem semelhanças enormes entre a técnica de manufatura e o estilo desse sapato com as encontradas em toda a Europa em períodos posteriores, sugerindo que esse tipo de sapato foi usado por milênios através de uma grande região geográfica.

Dr. Silvio Maffi
Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo
