Os Calçados Mais Antigos do Mundo

Dr. Silvio Maffi

Existem evidências que a história do sapato começa a partir de 10.000 anos A.C., ou seja, no final do período Paleolítico, pois pinturas rupestres e achados arqueológicos desta época foram encontrados em cavernas da Europa e América do Norte.

O uso de fibras vegetais para amarrar e trançar é uma das habilidades mais antigas usadas pelos hominídeos na fabricação de utensílios e era usada inicialmente para unir galhos de madeira, construir abrigos, amarrar animais, fabricar cordas, redes e roupas primitivas. Por esta razão, os primeiros calçados foram provavelmente feitos de fibras vegetais trançadas.

O calçado mais antigo conhecido até hoje é uma sandália de fibra vegetal achada na caverna “Catlow Cave”, no limite sul de Catlow Valley, e na caverna “Fort Rock Cave”, perto de Fort Rock State Natural Area, ambas no estado de Oregon (EUA).

As sandálias datam de 9.300 a 10.500 anos e são feitas de fibras trançadas de Artemísia Tridentada(Sagebrush (EUA) ou Flor de São João (BR)) e estão expostas no Museu de História Natural da Universidade de Oregon.

 

Sandálias trançadas de Artemísia Tridentada de 9.300 a 10.000 anos

 

Na gruta “Arnold Research Cave” no Missouri (EUA), foram descobertos vários tipos de calçados, basicamente do tipo mocassim e sandália, datados com cerca de 7500 a 9000 anos, fabricados com pele de veado e fibras vegetais.

 

 

 

Mocassim de pele de veado e palha (esquerda) e sandálias de fibra vegetal trançadas (centro e direita)

(7500 – 9000 anos)

 

Nas cavernas de “Hinds Cave”, localizadas em Pecos, no estado do Texas (EUA), foram descobertos vários tipos de sandálias, fabricadas com fibras de Yucca e com Lechuguilla. Esses calçados foram também datados com cerca de 9000 anos.

 

      

Sandálias feitas com fibras trançadas de Yucca e Lechuguilla – 9000 anos (Universidade do Texas (EUA))

 

Ainda no período Paleolítico, concomitantemente com a utilização das fibras vegetais para trançar e amarrar, o homem aprimorou o uso da pedra lascada e de artefatos feitos de osso e madeira. Entre os utensílios de pedra encontrados, existem vários que serviam para retirar e raspar as peles dos animais, o que indica que a arte de preparar o couro advém da caça e da necessidade de proteger o corpo da chuva e do frio.

O curtimento primitivo do couro exigia certa técnica, pois o couro rígido era difícil de moldar e limitava os movimentos do corpo. Molhar, amassar repetidas vezes e passar gordura animal deixava o couro mais maleável e possibilitava a fabricação de vestimentas. Por isso, de certa forma, os calçados de couro foram uma evolução técnica importante para o conforto e proteção dos pés do homem pré-histórico.

Um grupo de cientistas internacionais, liderados pela Universidade de Cork na Irlanda, encontraram em uma enorme caverna na Armênia o sapato de couro mais antigo do mundo, juntamente com vários outros utensílios.

O objeto tem a idade estimada em 5500 anos, isto é, 1000 anos antes da construção da grande pirâmide. Segundo as análises realizadas sobre várias amostras por três laboratórios no Reino Unido e EUA, a peça é do ano 3500 A.C, do período Calcolítico ou Idade do Cobre. Isto o converte no sapato de couro mais antigo achado no Velho Mundo, já que supera em 200 anos os sapatos utilizados pela múmia mais antiga já estudada, o famoso “Homem do Gelo” Otzi, que viveu há cerca de 5.300 anos atrás e seus restos mumificados foram encontrados em 1991 nos Alpes Otztal, na fronteira entre a Áustria e a Itália.

 

   

  

OTZI – Múmia de 5300 anos e Representações do ” Homem do Gelo “

 

Sapato do OTZI (3300 A.C.) – Couro com amarras em fibra trançada e proteção de palha

 

 

Duas reconstruções do sapato do OTZI

 

Encontrado sob uma camada de esterco de ovelha, o sapato estava perfeitamente conservado devido aos sedimentos e às condições ambientais secas e estáveis do local. A caverna está a 4.500 metros acima do nível do mar, em terreno rochoso e as temperaturas variam de -10 °C no inverno a 40 °C no verão.

 

Sapato de 5500 anos e a caverna onde foi encontrado na Armênia

 

Baseado em um único pedaço de couro de boi, o sapato está em perfeito estado de conservação e tem o formato de um mocassim ainda com os tirantes de couro transpassando seus furos. O calçado estava recheado de palha seca e os pesquisadores ainda não sabem dizer se o vegetal servia para manter os pés aquecidos ou para conservar o formato do calçado enquanto ele estava guardado.

Sapato de 3500 A.C – 200 anos mais antigo que o sapato do OTZI

 

 

De número equivalente ao 35 e lado direito, o sapato poderia ter pertencido a um homem ou a uma mulher daquela época. Não se sabe muito sobre as pessoas que usavam o sapato, mas pensa-se que teriam sido alguns dos primeiros agricultores e tribos nômades que usavam a caverna como base.

De acordo com os arqueólogos, existem semelhanças enormes entre a técnica de manufatura e o estilo desse sapato com as encontradas em toda a Europa em períodos posteriores, sugerindo que esse tipo de sapato foi usado por milênios através de uma grande região geográfica.

Dr. Silvio Maffi

Dr. Silvio Maffi

Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo