As Próteses Mais Antigas do Mundo

Dr. Silvio Maffi

Dois hallux (“dedão” do pé) artificiais com mais de 2.600 anos de idade são confirmados como as próteses mais antigas já encontradas. A descoberta desbanca a Perna de Cápua, uma perna artificial romana feita de bronze datada de 300 A.C., encontrada em um cemitério perto da cidade de Cápua e considerada a prótese mais antiga até então. A Perna de Cápua foi destruída na II Guerra Mundial após um bombardeio aéreo do Royal College of Surgeons de Londres, sua réplica está atualmente exposta no Museu da Ciência londrino.

 

      

Perna de Cápua e reprodução em gesso do Museu de Ciência de Londres

 

Em 2007, enquanto estudava partes falsas em corpos de múmias, a egiptóloga Jacky Finch, da Universidade de Manchester (Inglaterra), percebeu que dois dedos falsos foram elaborados com detalhes diferenciados em vez dos materiais comuns às práticas egípcias.

 

O primeiro dedo, chamado de Greville Chester, é datado em 600 A.C. e foi encontrado há 130 anos perto da cidade de Luxor (Egito), necrópole de Tebas. Feito com fibras de linho, cola animal e revestido de gesso colorido, a prótese inclui até mesmo um recuo para colocação de uma provável unha ornamental. Exposto atualmente no Museu Britânico de Londres.

O segundo, chamado Dedo do Cairo, é datado entre 950 e 710 A.C. e foi encontrado em 2000. Ele foi elaborado com três peças de madeira moldadas e perfuradas com pequenos buracos para a passagem de cordões de couro, como uma dobradiça que possibilita a flexibilidade e imita as articulações dos pés, demonstrando uma preocupação aguda com a anatomia. A prótese pertenceu a Tabaketenmut, a filha de um alto sacerdote egípcio e está exposto no Museu Egípcio do Cairo.

 

 

Os egípcios tentavam garantir com que os corpos dos falecidos chegassem à vida após a morte da forma mais completa possível. Se algum membro do corpo estivesse faltando ou muito machucado, ele era substituído por partes simples feitas de palha, fibra, lama e manteiga.

Os dedos encontrados pela egiptóloga, contudo, não aparentavam serem apenas adornos para o além-morte. Feitos com materiais diferenciados, eles mostravam sinais de desgaste, como se os donos os tivessem usado enquanto vivos.

 

Dra. Jacky Finch e suas próteses de teste

 

Para determinar corretamente qualquer nível de funcionalidade exige-se a aplicação de técnicas de análise de locomoção. Por isso, ela construiu réplicas dos dedos falsos e as testou em dois voluntários que não tinham o dedão do pé direito. No laboratório de marcha da Universidade de Salford foram medidas as pressões geradas pelo caminhar e câmeras analisaram os passos e o movimento dos pés. Foi concluído que os voluntários conseguiam movimentar os pés de modo altamente eficiente e ambos disseram que a prótese de madeira era especialmente confortável para a deambulação, confirmando a hipótese da pesquisadora de que os dedos falsos teriam sido próteses utilizadas em vida.

Para serem consideradas próteses, os dedos falsos não poderiam se quebrar enquanto eram utilizados e deveriam se adaptar ao formato do corpo sem deformá-lo. De acordo com a pesquisadora, as duas próteses preencheram ambos os critérios.    

“Quem quer que tenha feito estes dispositivos nos tempos antigos também teria discutido a adaptação e a sensibilidade em consultas com seus “pacientes””, concluiu Finch. A pesquisa foi publicada no periódico médico britânico The Lancet (Vol. 377 p 548).

Em entrevista ao jornal britânico Daily Mail, Jacky disse: “O estudo sugere que os dois dispositivos podem ser considerados como próteses e, sendo assim, os primórdios deste ramo da medicina devem ser atribuídos aos pés dos antigos egípcios”.

Dr. Silvio Maffi

Dr. Silvio Maffi

Especialista em Cirurgia do Pé e Tornozelo